O ataque recebido por Kell Silva ultrapassa a política, afronta a humanidade e reacende o debate sobre limites morais inegociáveis.
Eu, Fabrício Salvino, escrevo este editorial com a responsabilidade que a profissão exige e com a sensibilidade que um episódio como este convoca. Porque, diante do que aconteceu com a vereadora, mãe e professora Kell Silva, eu não consigo aceitar o silêncio. E, portanto, assumo aqui a minha posição: ataques que atravessam o território da dor de uma mãe revelam mais do que divergências políticas. Revelam falhas morais profundas. Revelam um tipo de sociedade que eu não aceito, que você também não deveria aceitar e que não pode avançar sem contestação.
Kell Silva recebeu uma mensagem que atingiu o limite absoluto da crueldade. Além de discordar de suas posições, a pessoa decidiu atacar a vereadora usando a morte da filha Pilar. Eu li cada trecho desse relato e senti uma indignação que ultrapassa qualquer debate partidário. Porque, quando alguém escolhe a dor de uma mãe como munição, essa pessoa abandona qualquer noção de convivência civilizada e adota a desumanização como método.
E é justamente sobre isso que eu preciso falar com firmeza. Segundo Kell, o agressor comparou a prisão de um político à morte de um bebê. Ele ainda insinuou que ela deveria “olhar para o próprio umbigo”, como se a memória da filha funcionasse como troféu moral ou argumento de ataque. Essa situação não discute democracia. Discute o colapso da empatia. Essa situação discute o ponto exato onde a política perde seu caráter público e se transforma em instrumento de violência emocional.
Força para lutar
E, por isso, eu me posiciono. Nenhuma divergência justifica tocar no sagrado que existe em uma mãe que perdeu um(a) filho(a). Comparação não se sustenta diante dessa dor. Nenhuma disputa política alcança legitimidade quando ultrapassa o limite básico da humanidade. E, portanto, eu reforço o que a própria Kell declarou: a dor dela a impulsiona a lutar para que nenhuma mãe enfrente o que ela enfrentou. A dor dela a leva para a política por um motivo maior. E essa motivação merece respeito, não ataques.
Enquanto escrevo este editorial, eu penso na dimensão simbólica dessa agressão. Ela não atinge apenas uma mulher pública. Ela atinge todas as mães que perderam filhos. Atinge todos que vivem lutos que nunca cicatrizam. Ela atinge a essência da empatia que deveria organizar as nossas relações. E, quando uma pessoa rompe esse limite, ela não discute ideias. Ela apenas confessa o tamanho da própria incapacidade de sentir o outro.
Kell também explicou que segue na vida pública porque acredita em um país menos cruel. Ela afirmou que trabalha para impedir que a violência se torne normal. Ela insiste na política por saber que a filha Pilar, que partiu, continua guiando seus passos. E, além disso, ela luta pelo futuro da pequena Leonor, que cresce, observa e aprende todos os dias com o exemplo de força da mãe. Eu absorvo essa fala com a seriedade que ela merece. Porque, quando a política tenta esmagar alguém que carrega uma dor tão profunda, o problema não está em quem sofre. O problema está em quem agride.
Respeito as diferenças
E, para ficar claro, este editorial não relativiza divergências. Eu respeito diferenças, debates, confrontos de ideias, disputas eleitorais e embates públicos. Isso constrói democracia. No entanto, atacar a memória de uma criança destrói qualquer noção de diálogo. Desumanizar uma mãe anula qualquer sentido de participação social. E transformar a dor dos outros em munição transforma a política em ferramenta de adoecimento coletivo.
Eu defendo, portanto, que a sociedade responda a esse episódio com repúdio e com firmeza. Porque, quando protegemos uma mãe atacada dessa forma, protegemos também a capacidade de sentir. Protegemos a compaixão. Protegemos o tecido emocional que sustenta a convivência. E defendemos a ideia de que limites existem, sim, e precisam ser respeitados.
Kell encerrou sua fala dizendo que segue na política não por vaidade, mas por compromisso. E eu reconheço essa força. Ela segue porque entende que cada ataque a impulsiona a construir o país que acredita. Ela segue porque transforma dor em luta. E ela segue porque acredita que ninguém deve aceitar a normalização da crueldade.
E eu encerro este trecho com a convicção de que solidariedade não é gesto opcional. É dever humano. Dever jornalístico. É dever coletivo. Por isso, eu me levanto ao lado dela. Por isso, escrevo estas linhas. E, portanto, reforço com todas as letras: a dor de uma mãe não se toca. A dor de uma mãe não se usa. A dor de uma mãe se respeita.
Escrevo como ser humano e Pai
Eu escrevo este editorial com um nó na garganta. Não escrevo como jornalista apenas. Escrevo como ser humano e Pai. Porque, diante do que você viveu, Kell, eu não consigo usar somente técnica, precisão e estrutura. Eu preciso usar o coração. E, portanto, eu escolho caminhar ao seu lado neste texto, como alguém que enxerga a sua dor e se recusa a aceitá-la como instrumento de ataque.
Quando você relatou que alguém usou a morte da sua filha Pilar para tentar te ferir politicamente, eu senti o mundo parar por alguns segundos. Senti esse impacto na pele. Senti o absurdo dessa ferida se abrir de novo sem nenhum motivo digno. E senti uma indignação tão profunda quanto a tristeza que paira na sua fala. Porque nada, absolutamente nada, justifica tocar na memória de uma criança. Nada autoriza alguém a transformar a dor mais íntima de uma mãe em munição de disputa.
A mensagem que você recebeu atravessou você, mas também atravessou todos nós que temos a sensibilidade mínima para compreender o tamanho do sofrimento que existe nesse lugar. Essa pessoa comparou a prisão de um político à partida da sua filha. Essa pessoa ainda insinuou que você deveria “olhar para o próprio umbigo”, como se a dor da perda existisse para ser usada, como se o amor que você sente por Pilar pudesse ser manipulado como argumento moral. Essa atitude não dialoga com política. Essa atitude dialoga com crueldade. Dialoga com a secura humana. Dialoga com aquilo que nenhum de nós pode normalizar.
Admirei a sua coragem
E eu te digo isso com toda sinceridade: eu admirei a sua coragem ao expor algo tão duro. Eu admirei ainda mais a sua clareza ao dizer que não aceita que a memória de Pilar vire metáfora. Você falou com firmeza. Você falou com verdade. E você falou com o coração da mãe que você é. Uma mãe que transformou luto em luta. Uma mãe que encara a vida pública não por vaidade, mas porque acredita profundamente em um país menos cruel, mais gentil e mais consciente da dor dos outros.
Enquanto escrevo, eu penso na enormidade dessa travessia. Você perdeu uma filha. Isso muda tudo. Isso reorganiza o mundo. Isso redefine prioridades. Isso quebra e, ao mesmo tempo, fortalece. E, mesmo assim, você escolheu seguir. Você escolheu servir. Você escolheu ocupar um lugar político para honrar a memória da sua menina. E, além disso, você escolhe construir um mundo melhor para a Leonor, que cresce ao seu lado, aprendendo com o seu exemplo de coragem, verdade e amor.
Eu sinto um profundo respeito pela maneira como você transforma a ausência de Pilar em guia. Sinto que a sua filha, do jeito mais delicado que a espiritualidade permite, caminha com você. Eu sinto que ela abraça cada passo seu. E eu sinto que ela protege sua força quando o mundo tenta te ferir de forma tão injusta, mesmo sendo tão pequena ainda.
Você não está sozinha
E, por isso, eu preciso reforçar algo: Kell Silva, você não está sozinha. A cidade olha para você, se comove com você, se indigna com você. E a cidade se levanta para dizer que nenhum ataque que ultrapassa limites morais encontrará espaço entre pessoas que ainda sabem sentir.
Eu escrevo este editorial como gesto de carinho, de respeito e de solidariedade. Escrevo porque a profissão também ama quando precisa amar. Eu escrevo porque a nossa humanidade não pode morrer dentro dos nossos textos. Eu escrevo por você, Kell Silva, pela sua voz, pelo seu luto, pela sua filha e pelo que você representa para tantas mulheres que carregam dores imensas e, ainda assim, seguem.
Você segue. E, enquanto você segue, Kell Silva, nós seguimos com você. Porque a dor de uma mãe não se toca. A dor de uma mãe não se usa. A dor de uma mãe se acolhe. E hoje, neste espaço, eu escolho acolher você.










